terça-feira, 11 de outubro de 2011
teus olhos uma lagoa de esperança
cinco besouros mortos espontaneamente e suco de laranja derramado no banheiro – nada é unânime – a realidade pode ser contestada – carrego cadáveres em pá de lixo atirando-os pela janela com uma breve prece de despedida, foi hoje que vi o sol nascer no teu sorriso, o sol apesar do frio o céu apesar do frio, apesar dos teus olhos cansados que só pude reconhecer na breve manhã e disse que eram lindos, lindos espelhavam algo mais alto mais além que a face do mundo escondida por trás de lentes de pó e saudade, a solidão e a serenidade daquele azul me retorceu as veias num claro estupor de puro êxtase eu queria estar ali, ali afogado em tua mente branca límpida como a tua mão que tentei aquecer na minha e depois foi só carinho e vontade de abraçar. a chuva aconchegante, nenhum vento, um telefonema e um reencontro inesperado às cinco da manhã, espalho palavras para enfeitar as paredes do meu quarto, o chão brilha enquanto rasgo minhas mãos tentando estar nele ser ele, eu também preciso de um pouco de brilho wowonderful why are you like this like this just like stars numa tarde febril do mês dez como cometas desabando aqui embaixo, sim, aqui sim embaixo da minha janela eu quase pude ver mas me escondi baixinho sussurrando pais nossos de olhos bem fechados, as unhas arranhando a pele dos joelhos balouçando num ritmo tão... engraçado... era dança coberta de lençóis de angústia lençóis brancos de angústia branca e memória perdida no tempo e no espaço como um grande baú de madeira com artefatos antigos, a última moda do verão passado, durmo ouvindo as cigarras morrerem, a chuva desabando sobre o teto do meu desespero.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
sleeping bees
olhos na colcha de cama e um dilema enorme com um cigarro entre os dedos e um café frio na mesa, o vício declarado e a insensatez contínua, a covardia, falta de força e eu digo que vou despedir-me, isso não significa nada, é a minha despedida e não é a primeira nem a última, farei isso cem vezes mais e não cansarei de dizer que acabou, que já não tenho mais motivos, nenhuma necessidade urgente e o café frio esfriando ainda mais, a xícara marcando ternamente minha mesa roubada de madeira velha, hakim bey mandando tchau da esquina com sua barba e o seu cachimbo marrom, olha na minha cara e diz de novo que não me quer, talvez esse seja o melhor remédio, outro tapa, um rasgo que deixe cicatriz, muito sangue pra saciar o meu desejo de escorrer sobre minha própria pele, derreter e me tornar parte de algo mais amplo que apenas esse corpo, o café esfria ainda mais e eu tomo um gole, 27 dias de contenção 27 olhos deitados comigo mexendo-se enquanto durmo, debato-me e luto contra insetos inexistentes pregados no meu corpo em chamas e os olhos dissolvendo-se pegajosos no meu corpo santuário jamais tocado, a lua na janela brilha e diz que pela manhã está tudo bem, pela manhã está tudo bem mas essa noite não dormirei e amanhã de olheiras fundas tatearei no escuro à procura de qualquer tato, língua no muro áspero e eu deixo minha carne por lá, onde estás tu que não te acho, onde a tua cabeça inclinada e os dedos deixados displicentemente sobre a minha boca, escorando-se em dentes antes de caírem pelo meu peito, onde as tuas unhas me marcando no espelho - amanhã eu vejo e é como se eu estivesse contigo outra vez, deitado sobre os olhos (dessa vez inertes) que tanto me atormentam – we walk through fire my love is your flashlight e cego tropeço em meus pés, beijo o chão de terra e levanto com a cara suja, a poesia é de quem precisa dela e quem precisa mais da poesia que o pobre poeta sujo de terra e afundado na lama, quem mais que o desmedido poeta, o horrendo poeta com suas palavras como foice contra o tempo, vertigem em sal ao meio dia torrando no asfalto, tu consegues ver bem como o calor nos deforma ferozmente, trêmulos misturados às faixas de sinalização e nenhum carro para acabar com essa angústia, nenhum anjo para nos carregar de vez ao inferno, asas prateadas cegando os olhos da alma, fogo celestial contra os pecadores inconsequentes, arrastando-se como vermes looking for an angry fix, a geração em branco, beatniks de barba feita e óculos escuros, malditos cheios de bondade e preguiça afundando na cama enquanto o mundo explode além dos limites de seus quartos, um brado terrorista e uma bandeira hasteada, hakim bey sorri lá embaixo, ginsberg envolto em fumaça quebra minha janela com uma pedra, eu estou furioso mas cansado demais para reagir, deixo que a chuva entre pelo ralo e mergulho meu rosto na terra preta com um fósforo aceso em mãos, meu fôlego apagado, meu calor misturando-se a tudo que não me pertence, sou o espelho do teu desespero, da tua desilusão e nem mais um sonho para adocicar meus dias, imaginação castrada, onde as tuas unhas onde os teus cabelos onde a tua a minha vida? eu dançando no teto do quarto como uma mariposa tamborilando meus ouvidos insones.
sábado, 20 de agosto de 2011
fluxo
Meu peito queima a insensatez meu orgulho queima a tua falta uma faca cravada no meu peito chamejando a saudade do teu toque desconhecido, da tua voz tão doce inimaginável escorrendo pelo meu ouvido desce até minha boca e as tuas palavras enfim se confundem às minhas te desejo com a tua própria língua e na tua garganta se forma o silêncio que nos abraçará exaustos de uma vez por todas e amém, uma pausa e uma respiração profunda, alívio inconsequente sobre lençóis rouquidão nos gritos do corpo, sangue de estrelas derretidas no teto com a luz apagada e da janela entra o sopro de um deus adormecido que nos carrega para longe de todo o veneno de agulhas escondidas debaixo do tapete felpudo. Alcanço os teus braços e te carrego tropeçando em cada galho de recordação despenco meu rosto na terra já suja de outro sangue e tu agarra a minha mão com uma ferocidade etérea, tu me obrigas a tua presença desmedida, deito a cabeça no teu peito e o sonho dita o ritmo pelo qual tu dança uma ciranda com os olhos cheios de flores ou de nuvens. Como uma lua que nasce violentamente acima e além de nossos céus, teu nome desenha em minha noite o carinho e o zelo da esperança, a utopia que guia os meus passos no asfalto derretido.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
um sonho recorrente, uma experiência - a mais
o asfalto frio comendo a pele dos meus pés – fogo no chão das três e meia – corri horas a fio descalço esqueci a camisa no sofá de casa eu não senti os seis graus que faziam naquela madrugada eu não senti a dor do sangue nos calos meus olhos não estavam ali. meus olhos não estavam ali vendo o resto da chuva sentindo o gosto da chuva o vento no rosto os cabelos molhados chicoteando meus olhos não estavam ali vendo os mendigos dormirem quase confortáveis quase como anjos expulsos do céu quase quase quase como eu corria sem saber por quê sem ter pra onde realmente ir mas eu corria e a paisagem era sempre o mesmo recorte de prédios empilhados uns por cima dos outros escondendo o céu que se erguia por detrás de tudo – uma edificação inconcebível. inconcebível eu estava encharcado não sei se por chuva não sei se por suor meus pulmões queimavam todos os cigarros fumados desde a infância e eu sabia, eu sabia que meu coração diria já chega e seu grito seria fulminante – uma bomba explodindo no meu peito – minhas pernas choravam por ajuda e eu não escutava meus ouvidos não estavam ali não estavam no barulho dos meus passos apressados do meu fôlego que já faltava não estavam no gemido em qualquer beco e nem nas sirenes que vez ou outra cantavam os meus ouvidos não estavam ali. os meus ouvidos não estavam ali me perdi porque nem os meus olhos nem os meus ouvidos estavam correndo comigo e quando tudo ficou escuro o que pude vislumbrar foi a porta da tua casa em minha frente, e eu suavemente, com a delicadeza da culpa, o silêncio natural da culpa, girei a maçaneta e entrei, pisando com sapatos sujos de lama o teu tapete preferido, fechei a porta atrás de mim e te ouvi, te vi chegando com uma toalha envolta nos cabelos, devia ter acabado de sair do banho, então foi fácil ignorar que eu era um espectro de toda a dor, apenas uma sombra do sofrimento e da agonia de outrora, foi fácil ignorar as manchas pretas no tapete, o sangue que se misturava ternamente com toda a frágil arquitetura do meu último desejo – uma mancha vermelha na vista turva – e foi fácil também deixar cair a toalha no chão úmido e enlaçar os braços no meu pescoço, foi tão fácil quanto receber os teus beijos que vinham como um alento infinito – eles ainda não terminaram – e então os teus olhos brilharam com a luz que entrava pela janela, teu quadril foi de repente uma naja em sua dança venenosa, mortal, e também foi fácil escutar o teu sussurro ao pé da minha orelha – já não sei qual -, foi mais que fácil – um prazer indizível – e foi uma canção o que naquela noite embalou o meu sono final. Eu sei onde meus olhos estavam nos teus, onde os meus ouvidos calaram a tua voz, onde perdeu-se o meu tato na tua pele, o cheiro de rosas que derramaram o seu vermelho nessa rua, agora. escuto as sirenes outra vez, cada vez mais perto, algumas vozes também não muito distantes, eu pareço não estar ali e, na verdade, não estou, o meu corpo estatelado no asfalto, a minha realidade é o chão fragoso, a dureza dos sentidos, sinto os flashes de uma câmera – estarei amanhã nos jornais, penso, uma pena. as imagens vão novamente se apagando, um manto enegrecido cobre o mundo lentamente – tu seguras a minha cabeça com as duas mãos e o teu sorriso se desenha bem perto da minha boca, nossos lábios se tocam, e o nosso abraço vai além do próprio fim.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
não tanto
A tua pele suave, não te vejo mais, sinto o teu toque cortante, fogo inabalável crista de galo lutador, o olhar compenetrado no inimigo tu me olhas com olhos de sangue seco. Vem com a boca arreganhada cheia de dentes e derrama o teu ácido na minha língua, mordida no fruto proibido, estamos condenados a sermos eternos amantes infinitos amantes distantes. Considero-te num polo longínquo onde quase não alcançam os olhos do meu espírito mas tu estás lá, num pedestal erguido com soberana obediência, um castelo erigido em teu nome com o teu nome porque só o teu nome ressoa em minha prece. Penso, logo tu existes. Nenhuma existência minha é justificada sem a tua presença inevitável sem o teu cheiro de mar o teu sal o teu suor molhando as páginas do meu livro de mágoas, a minha coleção de desafetos de dissabores que tu fazes questão de... Acalma-te, minha impaciência é meu amor ensanguentado, o pulo da fera a mordida violenta no pescoço da virgem trêmula os meus dedos forjando o fogo no teu seio agarro os teus braços furioso e te sacudo para ver se acordas: melhor que eu, mas não que te ame e que possa te amar tanto.
domingo, 5 de junho de 2011
arte pela arte
Perdeu-se por um instante no lento afogar-se do cigarro no mar de cinzas que inundava o cinzeiro. Pensou que aquela fumaça que fugia, meio sufocada, seria o único sinal do seu último fôlego e da sua última morte. Beber a dor, no entanto, é retorná-la ao seu lugar de origem, pois somente no homem ela nasce e pode florescer... As palavras lhe pareceram dignas de vergonha, sim, vergonha por representarem uma fuga exaustivamente infausta e frustrada daquilo a que chamam realidade. Não necessitava de outro remédio, de uma cura que o libertasse de todos os males que o atingiam. Necessitava, contudo, de um tapa na cara, uma rasteira que o colocasse de volta ao chão, sem os seus sapatos emborrachados, outra vez ali, esfregando a bunda no cimento, vendo o seu sangue derramado, encharcando os restos da calça rasgada... Seria necessário colocar-se de joelhos e deixar que partissem uma ripa em sua cabeça, sentir o sangue escorrer pelo ouvido, pelo pescoço e sujando sua camisa branca, sua camisa branca lavada e passada, tão bela, tão incólume diante de tudo... Mas, não, era orgulhoso demais para deixar-se levar por um pensamento ridículo como aquele. Beber a dor blablablastoptalkinshit não abaixaria a cabeça, agarrou com firmeza a caneta e se pôs outra vez a escrever, mecanicamente, deixando de lado o que sentia e o que pensava, arte pela arte, meu velho, sem motivo ou conteúdo, arte. Satisfazia-se com esse pensamento e não tardou em se sentir cômodo e confortável àquela distância de si mesmo.
sábado, 28 de maio de 2011
retalhos
anali anali! dança em mim o teu corpo envolto em uma espessa fumaça roxa e o teu rosto teus cabelos acariciando-me doce afago em minha pele delirante.. . . . ... o teu fogo aberto crepitando sob a sombra de meu peito meus braços trancados nos teus nas tuas costas na tua nuca teu suor escorrendo em mim como se fosse meu e é meu porque somos um anali, nessa noite nessas noites em todas as noites somos um. eu que te sonhei eu que te criei à luz de minha vontade mas a poesia anali a poesia está em ti e essa é tua, ninguém te tira e é ela que corre agora em minhas veias é tu quem corre em minhas veias e a tua respiração ofegante e o ar saindo por entre os teus lábios ligeiramente displicentemente abertos calados mudos agônicos. sem gravidade. estamos voando para dentro da nossa mente encarnada em lascívia poética em romantismo de amantes loucos e não negamos sê-lo e sobretudo eu o absurdo o inconcebível sonhador criador de mundos insatisfeito com a dureza da matéria com a clareza da realidade eu que transcendo sem transcender, apenas no meu olhar as coisas se transformam e o sentido de tudo está muito além da carcaça que se lhe encerra. que fazer quando a encenação e o cenário não bastam? dança, anali, derruba tudo e deixa que eu junte os cacos de todos os copos e pratos quebrados o resto do nosso jantar à luz do fogo de estrelas milenares nos mastigando nos fustigando com seus dentes incandescentes com suas torturas de pura beleza pura para nossos olhos muito acomodados em ares impuros e tudo o que é belo tudo o que é real nos soa estranho e quiçá impossível. impossível, anali, tudo o que se projeta para frente todo o presente no futuro é claramente irreal ideal imaginário. é por isso que sento todos os dias com meus pés balouçando no vazio e minhas mãos caçoam as nuvens e o s anjos lá em cima eu estou perdido entre os teus seios o meu rosto imerso entre os teus dois seios e tudo isso é mentira porque a mentira é muito mais bela que a nossa vida. Inventemos, anali, a vida nossa e a dos outros inventemos nosso mundo de cores inconcebíveis e quadros de magritte e vamos vende-lo nas esquinas por um ou dois reais e depois abrimos franquias por todo o mundo e começamos a vender por todo o mundo para todo o mundo o nosso mundo inventado o nosso mundo de perfeita alucinação jamais plausível. anali, perdoa-me por ser excessivo perdoa-me por ser mais que intenso perdoa-me por ser o cometa que planeja te atingir ferozmente e deixando em ti uma cratera uma cicatriz uma lembrança eternamente cravada na pele do corpo na pele da alma: só em ti eu encontro desejo para tanto. para tanto. pa r ata n to. . ... .. . . .
Assinar:
Postagens (Atom)