segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Observações...

Sentado sob a sombra d’uma árvore
Na terra, longe do mármore,
Observo, atônito, os segredos
Que o homem malsão guarda
A sete chaves, e que aguarda
Serem esquecidos nos enredos.

E diante dos meus olhos se prostra
A resposta que a mim se mostra
Sobre a mentira de realidade.
Mas os que se julgam superiores
Pela nefasta mecânica dos horrores
Desconhecem o sentido da verdade.
***
Ao meu lado, cai uma maçã
E lembra-me o sanguinário afã
Das leis superiores à gravidade.
O mundo podemos conhecer
Apesar de nos recusarmos a entender
A alma e sua pseudo-frialdade.

Ignorando a maldade humana
Resumo-me à condição insana
Do Niilismo absoluto da matéria.
E desprezo a prisão de carne e ossos
Que me enterra em infindáveis fossos
Ao ouvir forte, a pulsação da artéria.
***
Após um momento de distração
Retorno à minha profunda abstração
Do homem em sua medíocre vida.
E num movimento rotineiro
Ergue e desce a pá, o coveiro,
Celebrando mais uma triste ida.

E pergunto a mim mesmo o que reserva
O pós-morte, que em si conserva
O maior mistério deste universo.
E, ao lembrar que tal é meu futuro,
Compreendo meu desejo obscuro
De, na morte, me manter submerso.

domingo, 23 de novembro de 2008

Gabriela

Encontro-te em meus sonhos, em nossos sonhos.
Num universo constituído por apenas nós dois.
Em volta, o amor: reinventando-se e multiplicando-se.
Tentando inutilmente preencher nossos corações –
Infinito onde se guardam os nossos corpos.

Minha mão esquerda escorrega pela tua cintura
Enquanto a direita acaricia teus cabelos
Tu me seguras por completo, sou todo teu,
E a minha vida é toda tua.

Não esqueça dos segredos e das promessas
Dos sonhos sonhados por duas mentes
Vividos por dois corações
E ansiados por dois corpos.

Não esqueça que te amo,
E não esqueça teu amor por mim.
A esperança é a última que morre?
Pois morreremos para mantê-la viva!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Apreço apressado

A água que meus beiços molha
É por outrem insanidade dita
E essa realidade que se me antolha
Configura-se tal como uma rinha maldita.

Salve aos que acreditam na vida
Pois a mim esta é, com sorte,
Uma morte desgraçadamente parida
Que nem assim deixa de ser morte.

A dúvida e a descrença me apreçaram
A agonia reinante em minh’alma
Que se estende também por corpo.

E o preço a ser pago é elevado
Pelo cambalacho imaculado
Da carne em um estado torpo.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Cegueira

Os pés e as mãos os vermes comem
E a carne mostra sua fragilidade.
Sábios os que sabem ver no homem
O esmero da imaterialidade.

Pólipo das atividades espirituais.
A fé no desconhecido me é nutrida
Não pelo espetáculo dos rituais
Mas pela cura da alma tão ferida.

O apodrecimento dos tecidos me convence
Que a mim este corpo não pertence.
À Terra se reserva tal endemia...

A vida parcamente se conserva
E a vista fatigada observa
A consagração dessa epidemia.

sábado, 1 de novembro de 2008

Lembrança Natural

Sob o plenilúnio exuberante
Recordo o passado elementar
E com o coração ígneo do infante
Lembro ser hora de lutar.

Recônditos segredos da matéria
Vive a alma insana e impura
Sob a luz ignota da idéia
Procura a vida, e à morte se empurra.

Urra na floresta meu mais elevado ancestral
O leão ou o macaco da classe mais banal
Que os homens julgam ser a esperança
De uma nova e insalubre mudança.

Entre a carne os vermes se fartam
Pelos homens que a si mesmos matam
A natureza esconde e engana
Com o telúrico ódio cultural
A verdade sobre a condição humana:
Do Ser igual ao animal.