Dores infinitas
teoria do caos
silêncio de pessoas
vazio existencial;
o muro já não é verde
nem de cimento
no centro
há um oco,
um vazio de sentimento;
a verdade é subjetiva
como a voz
que vem de dentro
calado, estou errado
e minha fala é silêncio.
segunda-feira, 23 de setembro de 2019
sexta-feira, 25 de maio de 2018
Sobrevivo
Eu anseio
pela dor.
Não a dor
que tempera
E encanta o
fim dos amores
Com suas
lágrimas e soluços
A ecoar no
vasto vazio
do
esquecimento.
Menos ainda
A negra dor
do luto
A nos
lembrar que somos apenas
Um breve
suspiro
Em meio ao
caos, tempestade
De corpos.
Anseio pela
dor da carne:
O corte
profundo
Com seu
emblema de sangue
E terror
- uma
explosão
Na superfície
lunar –
E o grito
que se debruça
Sobre a
tarde:
Elástico
e efêmero.
Findo o
grito,
Findos os
espasmos
Que dissolvem
a carne,
Resta enfim
a certeza:
Sobrevivi,
Sobrevivo.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
doce
Acendi o cigarro, dei o primeiro trago, e então, debruçado sobre o parapeito da janela, bebi um gole de café - o vapor quente subiu e embaçou meus óculos, e naquele momento foi como se de novo eu estivesse na tua varanda, vendo o sol e o dia que nasciam, embriagado pelo amor e por aquela música que faziam as ondas que iam e vinham, como eu mesmo disse pra ti, é o mar respirando, e tu sorriu e me deu um beijo e então eu escrevi um poema sobre um café muito muito doce e os beijos do mar sobre a praia, mas o meu café está terrivelmente amargo, eu o sinto derramar-se sobre minha garganta e então descer, lentamente descer e aquecer meu coração vivo de espasmos de ciúmes e sobretudo de saudade, saudade da tua mão e do teu colo, de tudo aquilo que era o mundo e a vida e que hoje não é mais que lembrança, meu irmão, meus pais, a casa, o quarto, o céu, tu... Não consegui fumar mais, minha consciência pesa uma tonelada, apaguei o cigarro e ouvi lentamente o piano que tocava em algum lugar, ao longe, talvez minha imaginação, lembrei de mozart e de guevara, mas daqui eu não vejo o céu e muito menos as estrelas, prédios e mais prédios me tapam a vista e eu penso que é isso exatamente o que eles querem, matar o eu mais íntimo, a parcela que soube se proteger bastante bem até agora, que ainda está viva e pulula como a última chama da noite, e a noite que acaba de começar e a cidade já morta, apenas os boêmios se sustentam fora de seus casulos, só eles estão prontos para o beijo que a madrugada nos dá entorpecida, um beijo molhado como uma fina chuva que cai e molha nossos ombros, e então aquela chuva quando eu te disse sempre teu, o teu cabelo molhado caindo sobre o teu rosto e eu achava que não haveria nada mais belo, e não há, nunca houve, carregarei a tua cicatriz nas costas como a marca de um chicote que me feria docemente, garrinhas de tigre ou qualquer coisa parecida, o engraçado é que eu falo tudo isso com saudade do que tu nunca foi, afinal eram os meus olhos perdidos em meio a névoa que te confrontavam como se tu fosses meu próprio espelho, eu anjo maternal cuidando de mim mesmo numa alucinação inconsequente, e então perceber como um acordar repentino que tu jamais foi ou será doce como aquele café ao qual atribuí tanto valor, mas exatamente o contrário, o amargo que fica na língua e obriga qualquer um àquelas caretas vergonhosas, e são exatamente os lábios de mel que escondem a língua bifurcada, o teu veneno correndo nas minhas veias, o teu sorriso resplendendo na memória e então a tua imagem real, os telefonemas de todas as doses de todas as noites, os detalhes sobre uma traição que hoje tu negas, as várias fases, as várias faces, e então eu descubro o amor mais puro e simples, sem desejo, sem egoísmo, pura atenção e cuidado com aquela que poderia ser minha filha ou minha irmã, nas minhas costas correndo pelo corredor enquanto teu olhar me segue ao longe, talvez arrependida, talvez amargurada pela tua presente impotência, de qualquer forma quando volto a cabeça ainda consigo te distinguir, com aquela sede e a língua esmagada pelo peso da culpa, agora é a hora, entro numa sala e sou eu com a mulher da minha vida que nunca imaginei, nenhuma paixão, nenhum diabinho cutucando meu peito, apenas um profundo sentimento talvez gasto e já farto de si mesmo, mas conservando nas suas entranhas a pureza que faz sempre um homem acordar mais perto da santidade, mais distante do pecado de cada dia, o sabor do café de manhã cedo, o pão massa grossa quentinho com a manteiga derretendo, uma mordida, duas, são sete da manhã e todos temos que trabalhar, nesse mundo é melhor se manter em pé, e melhor é se manter em pé ao lado de outra pessoa também em pé, de mãos dadas, juntos até a alma, como dois bêbados que caminham abraçados numa rua de piçarra, dois bêbados abraçados, de uma vez por todas e em paz, amém.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Fatídico
Não posso fugir o chão de agulhas e meus pés frágeis. Eu continuo vendo pelo buraco da fechadura se você está lá arrependida, mas sou e será somente eu e minha paranoia nessa noite que promete ter muito mais que horas escuras e besouros zumbindo me chamando para fora da janela. Cada um que passa aqui em baixo é você em potencial, por isso estou sempre alerta para que quando você passe eu esteja perfeitamente escondido atrás das cortinas debaixo das cobertas com o coração estendido como uma língua salivando contra você então eu te olharia e diria que preciso manter de pé o orgulho embora não consiga e teus olhos chorariam os meus mas quem calará a voz daquilo que já silenciou, quem, mas quem dirá com tamanha mudez exatamente aquilo que eu posso e preciso e sobretudo quero ouvir, o teu cabelo esparramado no meu peito enquanto eu e meus devaneios, tua respiração ofegante e tuas mãos perdidas passeando pelo meu corpo enquanto teus olhos baixinho dizem que me ama e eu sei que é verdade, eu sei que não conseguirias mentir para mim com esses olhos tão claros quanto o desejo incontido e o pecado e o delírio e a culpa, sempre a culpa para que eu não durma só, porque dormir só seria dormir bem e esse é um castigo que ainda não me foi dado. Peço perdão mesmo sem saber por quê, por ter mandado aquela carta ou por ter te sorrido envergonhado, talvez, ou por não poder te ter e não poder me ter e precisar conviver com tantas ausências e chorar tantos mortos ainda não morridos, tu um deles, porque agora é tarde e as estrelas já caíram inebriadas sob o pano da noite e o teu sorriso seria a minha única luz mas já é tarde, teu desenho ainda se distingue na minha imaginação como um anjo que para me salvar teria que sacrificar a si mesmo e por isso eu nego a salvação e me condeno a ser impuro, a ser vil a sentir ainda o teu cheiro na minha camisa, na minha cama e em teus dedos caminhando displicentes sobre meu corpo o teu cabelo a tua respiração o teu sorriso, tu, tu, de novo tu que no teu sono me criou e me fez viver, com aquele rostinho tão doce, sorrindo sonhando e no entanto pesadelos mais atrozes que a minha vontade de abrir o teu vestido e te possuir só minha retalhavam tua calma e a um só tempo nos colocávamos na mesma lama em que já estou acostumado a andar, tu que tão pura, tu que tão bela, tu suja da mesma terra que me engasga enquanto tusso e sufoco, tento te cuspir de dentro de mim mas já é tarde, as estrelas deitadas no asfalto úmido da noite em claro porque meus olhos não saberiam fechar sem vislumbrar a tua imagem, sem permanecer nesse tempo em que já não se pode estar, o terreno calcificado do passado, é preciso lidar com a situação da melhor maneira possível, e a melhor maneira possível é resistir ao apelo fácil do suicídio, é ter em mãos uma barra de chocolate e uma garrafa de vinho bem doce, pra simular o teu beijo, o teu beijo amanhã dentro de minhas malas e então jogados no mar como pássaros atirados sobre um rebanho de ilusões que se desfazem em ondas contra os corais. Eu não amo com a obrigação de acertar.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Revolver
Abro os olhos enterrados nervosos na areia da praia.
Meio dia. O sol arde sufoca e o lobisomem uiva na torre mais alta de um castelo de areia que o mar acaba de engolir. Estou só e por toda parte as flores de uma primavera que não veio dançam como borboletas cegas perdidas no balbucio de suas asas. Vampiros nadando no aquário do meu quarto banhando a lua que goteja cal na ponta da minha língua rígida estendida como uma ponte para a morte e lentamente a luz desenha no meu peito a sombra de mim mesmo quando eu já não teria sido, ou será que... Afunda a cabeça na lama, desdenha o teu corpo diamante olha só como brilha, olha, a carne brilha o fátuo brilho da impermanência, é fácil deixar-se enganar, toma esse livro em tuas mãos e folheia as tuas páginas de ócio, meus desejos dissolvidos nas algas que pouco a pouco enroscam nos teus dedos para não soltar nunca mais. Permita-me, senhor, levar o teu olho de rubi como recordação do pirata afogado na pia de sua própria casa entre baratas que escorriam pelo ralo seus corpos gentis e pedaços miúdos de ouro que em verdade eram o sol se pondo no horizonte em chamas, uma bela imagem para apreciar antes da morte, sem dúvidas o senhor foi condecorado com o louro do paraíso celeste, mas como o senhor me diz que o paraíso é pueril e indigesto, começo a achar que então ninguém tem mesmo sorte e estamos todos condenados a viver e reviver nosso inferno cada dia da semana. Estamos tão confortáveis deitados numa cama de espinhos que eu te abraço como se os tempos fossem outros e eles ainda não tivessem chegado para marcar com sua presença nossos passos no asfalto pegajoso, porque eles vieram disseminar a minha a tua a nossa culpa e nos chicoteiam com olhos de anjos e carícias de amantes, rasgando a cueca velha na tentativa de... pintaram um retrato, imagina, um retrato enorme de mim mesmo e como castigo me fizeram mirá-lo fixamente e então eu já não sabia se eu era eu ou se era o retrato ou se nenhum dos dois, lancei mão de minhas correntes e tentei voar com asas de concreto mas caí e esfarelei minha cara ali mesmo no chão da rua, eles mijaram no começo da ladeira e eu via lentamente o destino inevitável chocar-se contra o meu rosto. No entanto, foi nas feridas abertas e no sangue manchando o peito que descobri quem era e pude enfim me levantar contra os carecas de chapeuzinho, crianças diabólicas abanando suas cruzes e cantando de mãos juntas, tão bonitas, por que foi que nós fugimos de lá mesmo? faz tanto tempo... eu já nem me lembro... Mas é melhor ficar do jeito que está, vista-se que temos o mundo só para nós. Então eu beijo as costas da mão que tu estendes para mim, cravo os meus olhos nos teus e percebo que nem todos estão condenados ao inferno interminável, que talvez tu e eu sejamos os dois órfãos por quem olha o Pai complacente, sim, não sei eu, mas tu tens algo de angelical, algo que não se perdeu na queda e eu não quero que se perca jamais, o meu pedaço de nuvem onde sonho tranquilo enquanto corremos descalços com saudade de casa... Por isso eu te peço olha por mim, meu bem, olha, que teus olhos derramam a sede da bondade do Pai por onde quer que cantem.
Meio dia. O sol arde sufoca e o lobisomem uiva na torre mais alta de um castelo de areia que o mar acaba de engolir. Estou só e por toda parte as flores de uma primavera que não veio dançam como borboletas cegas perdidas no balbucio de suas asas. Vampiros nadando no aquário do meu quarto banhando a lua que goteja cal na ponta da minha língua rígida estendida como uma ponte para a morte e lentamente a luz desenha no meu peito a sombra de mim mesmo quando eu já não teria sido, ou será que... Afunda a cabeça na lama, desdenha o teu corpo diamante olha só como brilha, olha, a carne brilha o fátuo brilho da impermanência, é fácil deixar-se enganar, toma esse livro em tuas mãos e folheia as tuas páginas de ócio, meus desejos dissolvidos nas algas que pouco a pouco enroscam nos teus dedos para não soltar nunca mais. Permita-me, senhor, levar o teu olho de rubi como recordação do pirata afogado na pia de sua própria casa entre baratas que escorriam pelo ralo seus corpos gentis e pedaços miúdos de ouro que em verdade eram o sol se pondo no horizonte em chamas, uma bela imagem para apreciar antes da morte, sem dúvidas o senhor foi condecorado com o louro do paraíso celeste, mas como o senhor me diz que o paraíso é pueril e indigesto, começo a achar que então ninguém tem mesmo sorte e estamos todos condenados a viver e reviver nosso inferno cada dia da semana. Estamos tão confortáveis deitados numa cama de espinhos que eu te abraço como se os tempos fossem outros e eles ainda não tivessem chegado para marcar com sua presença nossos passos no asfalto pegajoso, porque eles vieram disseminar a minha a tua a nossa culpa e nos chicoteiam com olhos de anjos e carícias de amantes, rasgando a cueca velha na tentativa de... pintaram um retrato, imagina, um retrato enorme de mim mesmo e como castigo me fizeram mirá-lo fixamente e então eu já não sabia se eu era eu ou se era o retrato ou se nenhum dos dois, lancei mão de minhas correntes e tentei voar com asas de concreto mas caí e esfarelei minha cara ali mesmo no chão da rua, eles mijaram no começo da ladeira e eu via lentamente o destino inevitável chocar-se contra o meu rosto. No entanto, foi nas feridas abertas e no sangue manchando o peito que descobri quem era e pude enfim me levantar contra os carecas de chapeuzinho, crianças diabólicas abanando suas cruzes e cantando de mãos juntas, tão bonitas, por que foi que nós fugimos de lá mesmo? faz tanto tempo... eu já nem me lembro... Mas é melhor ficar do jeito que está, vista-se que temos o mundo só para nós. Então eu beijo as costas da mão que tu estendes para mim, cravo os meus olhos nos teus e percebo que nem todos estão condenados ao inferno interminável, que talvez tu e eu sejamos os dois órfãos por quem olha o Pai complacente, sim, não sei eu, mas tu tens algo de angelical, algo que não se perdeu na queda e eu não quero que se perca jamais, o meu pedaço de nuvem onde sonho tranquilo enquanto corremos descalços com saudade de casa... Por isso eu te peço olha por mim, meu bem, olha, que teus olhos derramam a sede da bondade do Pai por onde quer que cantem.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Talvez
Por vezes, estivera eu naquele quarto onde era impossível manter a camisa no corpo, porque o calor era excessivo e o suor inevitável. Sentado num banco de madeira, mantinha por horas as costas dolorosamente curvadas, com os cotovelos apoiados sobre a mesa em que repousava um livro aberto e uma luminária que ardia incessantemente, dia ou noite, liberando um cheiro acre e revelando a poeira que circundava de forma minuciosa todos os objetos presentes. Ali, entre estantes de livros devorados pelas traças, sempre solitário e escuso, na escuridão de uma sala que não via jamais o sol, degustei as horas de anos que passaram sem mostrar suas caras, já que meu tempo não era medido com relógios e calendários, mas com as necessidades de dormir e comer e ler. Também o ambiente, visivelmente descuidado, sujo e quente, não me incomodava. No fundo, acredito que jamais estivera realmente ali, mas imerso nos mundos de Kafka e Cortázar, Rosa, Borges e Grass. Só mais tarde conheci García Marques e a sua imensa batalha de vida contra a solidão – e a solidão, eu acreditava que a aceitava da forma mais natural possível, nem passiva nem instintivamente, apenas a aceitava como condição obrigatória do meu presente, e que melhor era aproveitá-la que combatê-la, pois meus recursos eu guardava para lutar outras guerras: as de Aureliano Buendía pelo seu próprio orgulho; as de Ché, que fumava um cigarro para fazer as pazes com a vida e deleitava-se imaginando Mozart, deitado na grama e banhado pela noite estrelada de sangue. E pensava, sempre antes de dormir, que teria desperdiçado meu tempo, enquanto meu irmão ganhava altura e peso e perdia cada vez mais rápido os traços infantis. E me arrependia de não tê-lo colocado ao meu lado para contar-lhe do que se tratavam tantas páginas com letras onde se escondiam vidas e passados e amores: eu, ensimesmado em um quarto escuro que do sol só sabia o calor, quase satisfeito em minha solidão quase deliberada, arrependendia-me por não aproveitar a infância do meu irmão, que se desgastava continuamente e polia o rosto e os cabelos com a maturidade dos anos. Ah, e quantas noites chorei com soluços abafados pelo travesseiro, afundando o rosto no pano molhado de lágrimas e pensando que, talvez, estivesse a perder o melhor que me ofereciam as vozes e o mundo, e que meus dias passados debruçado sobre livros eram dias de ficção, também passados debruçado sobre a matéria impalpável da irrealidade, e me iludia com a pretensão do esquizofrênico, e criava para mim escudos de vidro que se quebravam ao primeiro contato com mamãe, que se dissolviam no assovio de Rodrigo e nas gargalhadas de papai. E não estive satisfeito. Saí do quarto, deixei para sempre os livros que foram meus únicos companheiros de adolescência, e, no entanto, não me entreguei ao carinho que me guardavam meus pais e meu irmão, mas me distanciei ainda mais deles e do que eles podiam me dar, e viajei três mil quilômetros para ser o mesmo Rômulo que perdia o dia e se arrependia de tê-lo feito à noite, o mesmo que sentia a dor de todos juntos e a imaginava como um apelo à santidade, e que perdia a doçura de seu espírito na pornografia e em relações desnecessárias, supérfluas, em que se quebrantava de maneira irremediável o ardor da paixão e a capacidade para amar verdadeiramente. Eu não mudei nada, e ainda choro à noite por estar invariavelmente só; e torturo minha mente, espremendo-a entre o pragmatismo ao qual me obriga o mundo e a indolência e beleza de que necessita minha alma. Possuo CEP, RG, CPF – e, contudo, jamais soube realmente onde estou e quem sou. Talvez eu seja o paraíso e o inferno inescrutáveis.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
três parágrafos aparentemente desconexos
Em branco, de pé num movimento elástico de dança, secando os pés na beira de pura água de pura vida, tanto azul envolvendo-a e os cabelos gritando ao contato de estrelas – estou afogado na tua respiração, teus seios enrolados escondem atrás de si o prazer que tu me negas também com as pernas e braços fechados, indicando um caminho contrário ao teu, sugerindo um desvio de ti, do teu corpo que tanto me faz saudade, do teu carinho de mãe no meu cabelo perdido no tempo, nós dois perdidos no tempo e eu nos recordo com os olhos do espectador que não julga e não quer julgar: te quero hoje como sempre quis: muito.
Acordo, meus óculos estão afundados em sal, meus olhos queimam e gemem pela luz inoportuna que invade o quarto, o caos instalou-se por aqui e minhas velas acabaram, deito no chão com o ouvido colado ao assoalho para tentar escutar a respiração do mundo, mas o que há são lojas no andar de baixo, e os barulhos que me sobem e me arrepiam de medo são só a declaração escatológica do capitalismo gordo e desenfreado, vozes que entoam cantos-slogans e corpos que são a propaganda do próprio decadentismo.
O zelador do prédio certa vez me disse que é só um limpador de chão e por isso não iria falar com a garota do 106, pensei por um instante que ela também talvez ache isso e, à tentativa de qualquer espécie de contato, seria repelido com a crueldade da delicadeza que é pertinente ao trejeito de algumas mulheres que se põe acima delas próprias, assumindo uma postura pretensamente endeusada, pisando nossas costelas com seus saltos de quinze centímetros e nos fuzilando com olhares de fogo puro .
Entristeci. O Paraíba é um cara bacana.
Acordo, meus óculos estão afundados em sal, meus olhos queimam e gemem pela luz inoportuna que invade o quarto, o caos instalou-se por aqui e minhas velas acabaram, deito no chão com o ouvido colado ao assoalho para tentar escutar a respiração do mundo, mas o que há são lojas no andar de baixo, e os barulhos que me sobem e me arrepiam de medo são só a declaração escatológica do capitalismo gordo e desenfreado, vozes que entoam cantos-slogans e corpos que são a propaganda do próprio decadentismo.
O zelador do prédio certa vez me disse que é só um limpador de chão e por isso não iria falar com a garota do 106, pensei por um instante que ela também talvez ache isso e, à tentativa de qualquer espécie de contato, seria repelido com a crueldade da delicadeza que é pertinente ao trejeito de algumas mulheres que se põe acima delas próprias, assumindo uma postura pretensamente endeusada, pisando nossas costelas com seus saltos de quinze centímetros e nos fuzilando com olhares de fogo puro .
Entristeci. O Paraíba é um cara bacana.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
teus olhos uma lagoa de esperança
cinco besouros mortos espontaneamente e suco de laranja derramado no banheiro – nada é unânime – a realidade pode ser contestada – carrego cadáveres em pá de lixo atirando-os pela janela com uma breve prece de despedida, foi hoje que vi o sol nascer no teu sorriso, o sol apesar do frio o céu apesar do frio, apesar dos teus olhos cansados que só pude reconhecer na breve manhã e disse que eram lindos, lindos espelhavam algo mais alto mais além que a face do mundo escondida por trás de lentes de pó e saudade, a solidão e a serenidade daquele azul me retorceu as veias num claro estupor de puro êxtase eu queria estar ali, ali afogado em tua mente branca límpida como a tua mão que tentei aquecer na minha e depois foi só carinho e vontade de abraçar. a chuva aconchegante, nenhum vento, um telefonema e um reencontro inesperado às cinco da manhã, espalho palavras para enfeitar as paredes do meu quarto, o chão brilha enquanto rasgo minhas mãos tentando estar nele ser ele, eu também preciso de um pouco de brilho wowonderful why are you like this like this just like stars numa tarde febril do mês dez como cometas desabando aqui embaixo, sim, aqui sim embaixo da minha janela eu quase pude ver mas me escondi baixinho sussurrando pais nossos de olhos bem fechados, as unhas arranhando a pele dos joelhos balouçando num ritmo tão... engraçado... era dança coberta de lençóis de angústia lençóis brancos de angústia branca e memória perdida no tempo e no espaço como um grande baú de madeira com artefatos antigos, a última moda do verão passado, durmo ouvindo as cigarras morrerem, a chuva desabando sobre o teto do meu desespero.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
sleeping bees
olhos na colcha de cama e um dilema enorme com um cigarro entre os dedos e um café frio na mesa, o vício declarado e a insensatez contínua, a covardia, falta de força e eu digo que vou despedir-me, isso não significa nada, é a minha despedida e não é a primeira nem a última, farei isso cem vezes mais e não cansarei de dizer que acabou, que já não tenho mais motivos, nenhuma necessidade urgente e o café frio esfriando ainda mais, a xícara marcando ternamente minha mesa roubada de madeira velha, hakim bey mandando tchau da esquina com sua barba e o seu cachimbo marrom, olha na minha cara e diz de novo que não me quer, talvez esse seja o melhor remédio, outro tapa, um rasgo que deixe cicatriz, muito sangue pra saciar o meu desejo de escorrer sobre minha própria pele, derreter e me tornar parte de algo mais amplo que apenas esse corpo, o café esfria ainda mais e eu tomo um gole, 27 dias de contenção 27 olhos deitados comigo mexendo-se enquanto durmo, debato-me e luto contra insetos inexistentes pregados no meu corpo em chamas e os olhos dissolvendo-se pegajosos no meu corpo santuário jamais tocado, a lua na janela brilha e diz que pela manhã está tudo bem, pela manhã está tudo bem mas essa noite não dormirei e amanhã de olheiras fundas tatearei no escuro à procura de qualquer tato, língua no muro áspero e eu deixo minha carne por lá, onde estás tu que não te acho, onde a tua cabeça inclinada e os dedos deixados displicentemente sobre a minha boca, escorando-se em dentes antes de caírem pelo meu peito, onde as tuas unhas me marcando no espelho - amanhã eu vejo e é como se eu estivesse contigo outra vez, deitado sobre os olhos (dessa vez inertes) que tanto me atormentam – we walk through fire my love is your flashlight e cego tropeço em meus pés, beijo o chão de terra e levanto com a cara suja, a poesia é de quem precisa dela e quem precisa mais da poesia que o pobre poeta sujo de terra e afundado na lama, quem mais que o desmedido poeta, o horrendo poeta com suas palavras como foice contra o tempo, vertigem em sal ao meio dia torrando no asfalto, tu consegues ver bem como o calor nos deforma ferozmente, trêmulos misturados às faixas de sinalização e nenhum carro para acabar com essa angústia, nenhum anjo para nos carregar de vez ao inferno, asas prateadas cegando os olhos da alma, fogo celestial contra os pecadores inconsequentes, arrastando-se como vermes looking for an angry fix, a geração em branco, beatniks de barba feita e óculos escuros, malditos cheios de bondade e preguiça afundando na cama enquanto o mundo explode além dos limites de seus quartos, um brado terrorista e uma bandeira hasteada, hakim bey sorri lá embaixo, ginsberg envolto em fumaça quebra minha janela com uma pedra, eu estou furioso mas cansado demais para reagir, deixo que a chuva entre pelo ralo e mergulho meu rosto na terra preta com um fósforo aceso em mãos, meu fôlego apagado, meu calor misturando-se a tudo que não me pertence, sou o espelho do teu desespero, da tua desilusão e nem mais um sonho para adocicar meus dias, imaginação castrada, onde as tuas unhas onde os teus cabelos onde a tua a minha vida? eu dançando no teto do quarto como uma mariposa tamborilando meus ouvidos insones.
sábado, 20 de agosto de 2011
fluxo
Meu peito queima a insensatez meu orgulho queima a tua falta uma faca cravada no meu peito chamejando a saudade do teu toque desconhecido, da tua voz tão doce inimaginável escorrendo pelo meu ouvido desce até minha boca e as tuas palavras enfim se confundem às minhas te desejo com a tua própria língua e na tua garganta se forma o silêncio que nos abraçará exaustos de uma vez por todas e amém, uma pausa e uma respiração profunda, alívio inconsequente sobre lençóis rouquidão nos gritos do corpo, sangue de estrelas derretidas no teto com a luz apagada e da janela entra o sopro de um deus adormecido que nos carrega para longe de todo o veneno de agulhas escondidas debaixo do tapete felpudo. Alcanço os teus braços e te carrego tropeçando em cada galho de recordação despenco meu rosto na terra já suja de outro sangue e tu agarra a minha mão com uma ferocidade etérea, tu me obrigas a tua presença desmedida, deito a cabeça no teu peito e o sonho dita o ritmo pelo qual tu dança uma ciranda com os olhos cheios de flores ou de nuvens. Como uma lua que nasce violentamente acima e além de nossos céus, teu nome desenha em minha noite o carinho e o zelo da esperança, a utopia que guia os meus passos no asfalto derretido.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
um sonho recorrente, uma experiência - a mais
o asfalto frio comendo a pele dos meus pés – fogo no chão das três e meia – corri horas a fio descalço esqueci a camisa no sofá de casa eu não senti os seis graus que faziam naquela madrugada eu não senti a dor do sangue nos calos meus olhos não estavam ali. meus olhos não estavam ali vendo o resto da chuva sentindo o gosto da chuva o vento no rosto os cabelos molhados chicoteando meus olhos não estavam ali vendo os mendigos dormirem quase confortáveis quase como anjos expulsos do céu quase quase quase como eu corria sem saber por quê sem ter pra onde realmente ir mas eu corria e a paisagem era sempre o mesmo recorte de prédios empilhados uns por cima dos outros escondendo o céu que se erguia por detrás de tudo – uma edificação inconcebível. inconcebível eu estava encharcado não sei se por chuva não sei se por suor meus pulmões queimavam todos os cigarros fumados desde a infância e eu sabia, eu sabia que meu coração diria já chega e seu grito seria fulminante – uma bomba explodindo no meu peito – minhas pernas choravam por ajuda e eu não escutava meus ouvidos não estavam ali não estavam no barulho dos meus passos apressados do meu fôlego que já faltava não estavam no gemido em qualquer beco e nem nas sirenes que vez ou outra cantavam os meus ouvidos não estavam ali. os meus ouvidos não estavam ali me perdi porque nem os meus olhos nem os meus ouvidos estavam correndo comigo e quando tudo ficou escuro o que pude vislumbrar foi a porta da tua casa em minha frente, e eu suavemente, com a delicadeza da culpa, o silêncio natural da culpa, girei a maçaneta e entrei, pisando com sapatos sujos de lama o teu tapete preferido, fechei a porta atrás de mim e te ouvi, te vi chegando com uma toalha envolta nos cabelos, devia ter acabado de sair do banho, então foi fácil ignorar que eu era um espectro de toda a dor, apenas uma sombra do sofrimento e da agonia de outrora, foi fácil ignorar as manchas pretas no tapete, o sangue que se misturava ternamente com toda a frágil arquitetura do meu último desejo – uma mancha vermelha na vista turva – e foi fácil também deixar cair a toalha no chão úmido e enlaçar os braços no meu pescoço, foi tão fácil quanto receber os teus beijos que vinham como um alento infinito – eles ainda não terminaram – e então os teus olhos brilharam com a luz que entrava pela janela, teu quadril foi de repente uma naja em sua dança venenosa, mortal, e também foi fácil escutar o teu sussurro ao pé da minha orelha – já não sei qual -, foi mais que fácil – um prazer indizível – e foi uma canção o que naquela noite embalou o meu sono final. Eu sei onde meus olhos estavam nos teus, onde os meus ouvidos calaram a tua voz, onde perdeu-se o meu tato na tua pele, o cheiro de rosas que derramaram o seu vermelho nessa rua, agora. escuto as sirenes outra vez, cada vez mais perto, algumas vozes também não muito distantes, eu pareço não estar ali e, na verdade, não estou, o meu corpo estatelado no asfalto, a minha realidade é o chão fragoso, a dureza dos sentidos, sinto os flashes de uma câmera – estarei amanhã nos jornais, penso, uma pena. as imagens vão novamente se apagando, um manto enegrecido cobre o mundo lentamente – tu seguras a minha cabeça com as duas mãos e o teu sorriso se desenha bem perto da minha boca, nossos lábios se tocam, e o nosso abraço vai além do próprio fim.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
não tanto
A tua pele suave, não te vejo mais, sinto o teu toque cortante, fogo inabalável crista de galo lutador, o olhar compenetrado no inimigo tu me olhas com olhos de sangue seco. Vem com a boca arreganhada cheia de dentes e derrama o teu ácido na minha língua, mordida no fruto proibido, estamos condenados a sermos eternos amantes infinitos amantes distantes. Considero-te num polo longínquo onde quase não alcançam os olhos do meu espírito mas tu estás lá, num pedestal erguido com soberana obediência, um castelo erigido em teu nome com o teu nome porque só o teu nome ressoa em minha prece. Penso, logo tu existes. Nenhuma existência minha é justificada sem a tua presença inevitável sem o teu cheiro de mar o teu sal o teu suor molhando as páginas do meu livro de mágoas, a minha coleção de desafetos de dissabores que tu fazes questão de... Acalma-te, minha impaciência é meu amor ensanguentado, o pulo da fera a mordida violenta no pescoço da virgem trêmula os meus dedos forjando o fogo no teu seio agarro os teus braços furioso e te sacudo para ver se acordas: melhor que eu, mas não que te ame e que possa te amar tanto.
domingo, 5 de junho de 2011
arte pela arte
Perdeu-se por um instante no lento afogar-se do cigarro no mar de cinzas que inundava o cinzeiro. Pensou que aquela fumaça que fugia, meio sufocada, seria o único sinal do seu último fôlego e da sua última morte. Beber a dor, no entanto, é retorná-la ao seu lugar de origem, pois somente no homem ela nasce e pode florescer... As palavras lhe pareceram dignas de vergonha, sim, vergonha por representarem uma fuga exaustivamente infausta e frustrada daquilo a que chamam realidade. Não necessitava de outro remédio, de uma cura que o libertasse de todos os males que o atingiam. Necessitava, contudo, de um tapa na cara, uma rasteira que o colocasse de volta ao chão, sem os seus sapatos emborrachados, outra vez ali, esfregando a bunda no cimento, vendo o seu sangue derramado, encharcando os restos da calça rasgada... Seria necessário colocar-se de joelhos e deixar que partissem uma ripa em sua cabeça, sentir o sangue escorrer pelo ouvido, pelo pescoço e sujando sua camisa branca, sua camisa branca lavada e passada, tão bela, tão incólume diante de tudo... Mas, não, era orgulhoso demais para deixar-se levar por um pensamento ridículo como aquele. Beber a dor blablablastoptalkinshit não abaixaria a cabeça, agarrou com firmeza a caneta e se pôs outra vez a escrever, mecanicamente, deixando de lado o que sentia e o que pensava, arte pela arte, meu velho, sem motivo ou conteúdo, arte. Satisfazia-se com esse pensamento e não tardou em se sentir cômodo e confortável àquela distância de si mesmo.
sábado, 28 de maio de 2011
retalhos
anali anali! dança em mim o teu corpo envolto em uma espessa fumaça roxa e o teu rosto teus cabelos acariciando-me doce afago em minha pele delirante.. . . . ... o teu fogo aberto crepitando sob a sombra de meu peito meus braços trancados nos teus nas tuas costas na tua nuca teu suor escorrendo em mim como se fosse meu e é meu porque somos um anali, nessa noite nessas noites em todas as noites somos um. eu que te sonhei eu que te criei à luz de minha vontade mas a poesia anali a poesia está em ti e essa é tua, ninguém te tira e é ela que corre agora em minhas veias é tu quem corre em minhas veias e a tua respiração ofegante e o ar saindo por entre os teus lábios ligeiramente displicentemente abertos calados mudos agônicos. sem gravidade. estamos voando para dentro da nossa mente encarnada em lascívia poética em romantismo de amantes loucos e não negamos sê-lo e sobretudo eu o absurdo o inconcebível sonhador criador de mundos insatisfeito com a dureza da matéria com a clareza da realidade eu que transcendo sem transcender, apenas no meu olhar as coisas se transformam e o sentido de tudo está muito além da carcaça que se lhe encerra. que fazer quando a encenação e o cenário não bastam? dança, anali, derruba tudo e deixa que eu junte os cacos de todos os copos e pratos quebrados o resto do nosso jantar à luz do fogo de estrelas milenares nos mastigando nos fustigando com seus dentes incandescentes com suas torturas de pura beleza pura para nossos olhos muito acomodados em ares impuros e tudo o que é belo tudo o que é real nos soa estranho e quiçá impossível. impossível, anali, tudo o que se projeta para frente todo o presente no futuro é claramente irreal ideal imaginário. é por isso que sento todos os dias com meus pés balouçando no vazio e minhas mãos caçoam as nuvens e o s anjos lá em cima eu estou perdido entre os teus seios o meu rosto imerso entre os teus dois seios e tudo isso é mentira porque a mentira é muito mais bela que a nossa vida. Inventemos, anali, a vida nossa e a dos outros inventemos nosso mundo de cores inconcebíveis e quadros de magritte e vamos vende-lo nas esquinas por um ou dois reais e depois abrimos franquias por todo o mundo e começamos a vender por todo o mundo para todo o mundo o nosso mundo inventado o nosso mundo de perfeita alucinação jamais plausível. anali, perdoa-me por ser excessivo perdoa-me por ser mais que intenso perdoa-me por ser o cometa que planeja te atingir ferozmente e deixando em ti uma cratera uma cicatriz uma lembrança eternamente cravada na pele do corpo na pele da alma: só em ti eu encontro desejo para tanto. para tanto. pa r ata n to. . ... .. . . .
terça-feira, 17 de maio de 2011
olhos no teto
a lâmpada balançando no corredor é o sol da nossa noite. fecho a porta às minhas costas e vejo tua silhueta suavemente desenhada sob a escuridão amarelecida que aos poucos nos vai envolvendo, nos engolindo com sua cumplicidade pronunciada, o desejo nervoso, saltando dos olhos, correndo solto pelo quarto derrubando a mobília, até que se encontram as duas mãos fingidamente perdidas, dissimuladas, e as pálpebras se fechando calmamente, enquanto as bocas trêmulas, carne desejada, debilidade de movimentos, um furor explodindo continuamente nas veias, o peito guardando a ferocidade do grito revolucionário, da oposição à ordem, do socorro imediato, e na garganta forma-se o sopro incandescente, silêncio molhado de amantes, nossa morte no seio da madrugada, a lua calcinada, deitada no asfalto úmido, braços enlaçados no pescoço, mordidas extasiadas e a dor doce que nos toma de assalto, e finalmente o silêncio dissipado, um grito profundo com o calor de corpos em chamas, um sorriso sincero estampado no rosto, cansaço, suor, satisfação. entre os lençóis, nenhuma palavra, no entanto algo menos ilustrativo, sangue encharcando olhos sonolentos, as cinzas da noite assopradas pelo fim iminente, o fim iminente e os relógios despertadores despertando o dia, cansaço em olheiras fundas, a lembrança sobreviva, mastigada pela rotina e contudo sobreviva, e uma esperança íntima, regozijo, talvez sonhos açucarados no cochilo depois do almoço.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
nada mais
e como que houvessem percebido por detrás da lua as cordas que a sustentam e decifrado o tenebroso cenário no qual estamos inseridos, não, não é essa a palavra, imersos, afogados, sufocados, agônicos... deram um passo para dentro da noite e colheram o fruto insidioso guardado em seu seio: a realidade, vocês podem ver, não existe - e agora como calmamente a minha própria língua, mastigando pedaços ensanguentados de minha carne apodrecida. deixo que caiam as mãos e a cadeira de madeira velha em que estou sentado é agora o trono de um rei empobrecido, decaído em sua moralidade absurda e inconcebível, o derradeiro pranto derramado sem espectadores, soluços ditados no nada, um sorriso irônico em face à morte com a foice empunhada, de novo as mãos caídas, inanimadas, matéria antiga de insensatez a carne, o brilho é vil, dá à tua carne o devido valor do apodrecimento, da mortalidade, e sente que é por ela que sente, a carne e a bandeira sanguinolenta, abastada do vermelho sol da tua vida, da minha e da morte de todos nós, cárcere privado e portas fechadas, nenhum vislumbre nos é permitido, só me resta deitar no chão e estender o meu olhar ao enegrecido céu nu de suas estrelas, deleite reflexivo, a realidade não existe, de qualquer forma é o que temos, no sonho não há fuga senão ilusória, limpo então as lágrimas e a senhora encapuzada me dá as costas, destruo o meu sono e declaro falido o desejo, estou bem sentindo a terra úmida, o capim e as formigas, o hálito frio da madrugada - arquejo dentro do silêncio, sou finalmente aquilo que me pertence. nada mais.
segunda-feira, 21 de março de 2011
a terceira batida no seio morno do pecado
à terceira batida na porta respondeu, olhando para ambos os lados ao abri-la, certificando-se de que ninguém haveria ali no corredor além dos dois. sozinhos, cúmplices no silêncio do assoalho sem passos - tocou suavemente a sua mão, com a ponta dos dedos, trazendo-o para mais junto de si, abraçando-o convidativamente, deixando esgueirar-se a cintura na sua, inclinando o busto para trás e olhando-o com um sorriso sacana no rosto: a cama e a noite são grandes demais para que eu as tenha sozinha – molhou-lhe os lábios com a língua cheia de saliva, estendendo um pouco o trajeto pela bochecha e até a orelha, conquistando-o com carícias cada vez mais incisivas, menos planejadas - os batimentos cardíacos acelerados, um suor estranho de mãos e corpos entrelaçados, o tremular da lua contra o espelho de olhos agônicos, a madrugada bruscamente cortada pelos gemidos abafados no travesseiro, os dentes cerrados, os cabelos no rosto, o doce da dor e o prazer, sobretudo o prazer que escorria de suas bocas, nuvem portentosa entre unhas cravadas na pele nervosa, sussurros secretos jamais descobertos, luta de amantes desarmados pelo próprio desejo – nenhuma resistência por parte dela, e no entanto é ele quem se entrega, exausto, ao sono no seio já morno do pecado.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Sobre os sonhos
Estou afogado entre essas
quatro paredes azuis
que são a minha pequena
porção do Céu
e me sufocam até o último
trêmulo suspiro da alma.
Os escombros de uma vida
inteira amontoam-se sob um
telhado de barro onde dorme
o sol de um amanhecer intranquilo.
E não há nada a ser feito
quanto a essas criaturas
que debatem-se e explodem
num rojão portentoso e lascivo,
como mel escorrendo da boca
entreaberta de uma virgem enlouquecida.
E que, logrando a liberdade de nossos
ares impuros, mergulham
no mar de minha mente,
e só então meu corpo deixa de ser
apenas um punhado de carne
embrulhado num frágil esqueleto
de mortalidade.
quatro paredes azuis
que são a minha pequena
porção do Céu
e me sufocam até o último
trêmulo suspiro da alma.
Os escombros de uma vida
inteira amontoam-se sob um
telhado de barro onde dorme
o sol de um amanhecer intranquilo.
E não há nada a ser feito
quanto a essas criaturas
que debatem-se e explodem
num rojão portentoso e lascivo,
como mel escorrendo da boca
entreaberta de uma virgem enlouquecida.
E que, logrando a liberdade de nossos
ares impuros, mergulham
no mar de minha mente,
e só então meu corpo deixa de ser
apenas um punhado de carne
embrulhado num frágil esqueleto
de mortalidade.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
who's gonna save my soul now?
Eu costumava dizer que todos os dias são o mesmo dia, e que os meses e os anos são só parcelas atrasadas de um único instante, o único instante em que se situa o plano da nossa vida; e que talvez a metáfora não esteja muito além da realidade: a floresta está aqui, e há muitos nos olhando do penhasco que nos dizem o caminho certo a ser seguido, mas, nós, em nossa cegueira e em nosso orgulho, trilhamos pelos becos sem saída da vida, ou ainda pelas galerias que desembocam no nada... e, como uma forma de auto-compensação, acabamos por dizer que é melhor quebrar o nariz por andar com as próprias pernas que adormecer deitado no sofá da sala, esperando por algum evento inevitável que nos vá tirar dali, mas esperando, e deitados, imóveis... porém, depois de tudo e depois de tanto, é fácil admitir que teria sido mais fácil permanecer no sofá, levantar foi um erro, todos concordamos, e agora temos de administrar as conseqüências da melhor forma possível, afinal, não tem muito o que possa ser feito, a vida não é bem como nos filmes, as pessoas não são inocentes e eu definitivamente não sou diferente dos outros.
Eu costumava dizer que todos os dias são o mesmo dia e, quando percebo, estou acordado no meio da madrugada e há outra mulher em minha cama, não é a melhor hora, eu sei, mas sinto uma espécie de saudade completamente falsa, que aos poucos nos vai dominando e então é preciso corrompê-la com uma porção de realidade, as coisas nunca foram dessa forma, você nunca foi tão bonita, nunca fomos realmente felizes, mas, agora, agora é difícil me convencer disso, e eu continuo me perguntando: who’s gonna save my soul? Who’s gonna save my soul now?
Eu costumava dizer que todos os dias são o mesmo dia e, quando percebo, estou acordado no meio da madrugada e há outra mulher em minha cama, não é a melhor hora, eu sei, mas sinto uma espécie de saudade completamente falsa, que aos poucos nos vai dominando e então é preciso corrompê-la com uma porção de realidade, as coisas nunca foram dessa forma, você nunca foi tão bonita, nunca fomos realmente felizes, mas, agora, agora é difícil me convencer disso, e eu continuo me perguntando: who’s gonna save my soul? Who’s gonna save my soul now?
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Amanhã é outro dia
Enquanto a lua se deita lá fora e os vagabundos se perdem nos becos molhados de sangue, eu estou aqui, invariavelmente estou aqui, e sinto a solidão enorme de não estar em lugar algum me abater como o soco do nocaute ou o sono da morte - o carinho final no meu rosto já frio, meus olhos quase fechados e entre a neblina que se forma diante da minha retina o desenho de tuas bochechas contraídas num choro convulso, o doce de tua voz desesperada ao dizer acorda, acorda, e eu ali, aqui, já não sei bem, sei apenas que estou deitado e ignoro as tuas palavras, saldo a paz com um sorriso sincero e finalmente meus olhos estão cerrados. A tua cabeça repousa sobre a minha sem que eu consiga senti-la, e também não te sinto aqui, no peito, sabe?, parece, querida, que quem morreu não fui eu, mas tu, e com o meu sorriso atravesso incólume a chuva em que tuas lágrimas se tornaram, atravesso para sentir que sem ti estarei só, sempre só, porque um dia eu prometi: sempre teu. Mas, não enxergas, e agora o público saúda meu oponente, orgulhoso por sua vitória, enquanto eu desfaleço nesse chão, o gosto de sangue na boca, o suor queimando a pele e os gritos, os gritos que não param, não param nunca, perfurando os meus tímpanos, esmagando o meu corpo contra o solo como se cada grito fosse um golpe de marreta, primeiro a cabeça, o tronco, depois os braços e as pernas são prescindíveis. E em pensar que te saudei antes de entrar no ringue, beijei tua boca com a cumplicidade do inconfidente, agarrei teu pescoço com minhas duas mãos e beijei a tua boca, beijei a tua boca e, inocente, aceitei o teu sorriso e as tuas palavras que agora são lanças enterrando-se no meu peito, e tu, com os braços levantados, o sorriso estendido por sobre mim, que não me movo, a tua língua rasgando a minha pele, deixa o sangue escorrer, sente a tua vitória amarga se dissipar, o vermelho brilhando à luz no ringue, e os flashes, os microfones e todos te saúdam, todos te desejam, no ringue eu estou esquecido, tu em meio ao alvoroço e percebo que é exatamente isso o que mereces: a vitória, a horrenda vitória, a separação final, já não nos veremos mais, minha cara, pois o perdedor que reconhece a derrota está muito acima do campeão, do grande vencedor com os pés atolados na lama e as mãos amarradas pelo ego, pelo orgulho incandescente. O punho que tanto amei me abateu porque não fugi, aliás, corri ao teu encontro enquanto tu procuravas o melhor ângulo, a hora certa para infligir o golpe derradeiro, e eu não fugi, deixei que tua mão tocasse os meus lábios e no início era carinho o que fazias, ganhaste a minha confiança, no entanto, eu não sabia, nem imaginava, dormia abraçado com o meu inimigo, o traidor, virei as costas sem esperar a punhalada, ainda é difícil acreditar que é o meu sangue que suja a tua camisa branca, que é o vermelho do meu sangue que pinta as paredes do teu quarto, o meu sangue escorrendo da tua boca e tu como um vampiro, deliciando-se com o gosto do metal, e de novo eu estirado, nos braços de alguém, carregado como um saco de arroz, um bebê acima do peso, e tu me olhas, de longe, tu me olhas, a caça ainda não acabou, tu me olhas como o predador olha para a presa que foge, quase morta, mas foge, não será hoje, não, não será hoje que tu te sentirás saciada de mim, vou te deixar com sede e com fome, só eu tenho a água, só eu tenho a comida, e tu me olhas, esse olhar de ódio e negação, e a distancia se estendendo entre nós dois e não desvio do teu olhar, como algo infinitamente belo a minha vingança se desenha exatamente em receber todos os teus ataques sem revidar, a minha vingança, a dor que eu sinto com prazer, a dor dos teus dentes cravados na minha cabeça, o meu crânio perfurado pelo teu sorriso, e eu aqui, invariavelmente, eu aqui, e tu a não sei quantos mil quilômetros, não quero saber, mas, teu olhar ainda me segue, apesar de tudo e tanto, teu olhar me vislumbra como um objetivo, a linha de chegada, tu não estás satisfeita, vai voltar, e eu deixarei outra vez que te deites ao meu lado e dividas a noite comigo, porque é assim a minha vingança, no meio seio te aceitar e aceitar as conseqüências da tua companhia pérfida, e então a noite cai, estou quase recuperado, um sono restaurador se apossa de mim e amanhã é outro dia, amanhã é outro dia... Amanhã é outro dia...
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